terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ainda é tempo - FLIP 2010 I

A Mesa 2 da Flip foi uma conversa entre Lionel Schriver e Patricia Melo, mediada pelo Arnaldo Block.
O tema era a literatura e a violência. Ou algo do tipo. Foi interessante, embora eu não tenha entendido até agora porque dessas duas autoras, já que uma delas escreve sim, aquilo que costumamos chamar de "romance policial" (mas na verdade não é bem assim), e a outra escreveu um único livro com esse viés (mas na verdade também não é bem assim).

Patricia Melo escreve sobre violência, literalmente, e seus livros pendem a literatura policial, embora eu ache que não podemos aplicar o conceito puro de literatura policial. É aquele policial que lembra o Rubem Fonseca, numa comparação que a autora não gosta, mas que é inevitável.

Lionel Schriver escreveu um romance onde se discute a violência, porém a aproximação com a literatura policial, ou algo parecido, termina nessa palavra.

De qualquer forma (e vai ver está aqui o ponto), as duas autoras tem um olhar interessante sobre indivíduo, sobre a sociedade e narrativa. Valeu a pena.

Idéias sobre escrever, narrativa, personagens e violência:

Lionel Schriver:
“Uso meus romances para resolver questões que não entendo, que tenho algum tipo de conflito. Sei que encontrei o mote da história quando me vejo em uma situação que tem dois lados e não sei para qual deles devo seguir.”

Sobre a estrutura do romance “O mundo pós-aniversário”
“A história se passa em um universo paralelo: enquanto se está optando qual o caminho que se deseja seguir, a personagem experimenta duas vidas. É uma tentativa de reconstruir a ação das pessoas quando precisam decidir sobre o futuro”.

Sobre “Precisamos falar sobre Kevin”
Escreveu o romance para sanar uma dúvida: ser ou não ser mãe.
O livro a ajudou a entender do que tinha medo. Foi dessa forma que se livrou da ideia.

Patrícia Melo sobre a mente de Kevin:
- narrativa impactante
- retrato da cultura norte-americana
- aspecto moderno da violência: a violência da linguagem
- Kevin não comete apenas um gesto, ele quer dizer alguma coisa - Esse símbolo da linguagem - está dizendo alguma coisa sobre o mundo contemporâneo.

Para Lionel, a violência não é uma linguagem articulada. No romance, não se entra na cabeça do adolescente, assim como é impossível fazer isso na vida real. “Não acho que ele própria entenda o que o levou a cometer o crime”. Para ela, existe uma motivação obscura: o desejo de ser único, singular em uma nação grande. As vezes isso significa ser perigoso.

A opção em narrar a história em primeira pessoa (a mãe de Kevin), faz com que o olhar sobre a personagem venha de um terceiro. Por isso, nem tudo é confiável. Kevin, o filho não muito desejado, é percebido pela mãe como mau desde bebê. Se levantarmos só uma questão: “o quanto de maldade uma criança muito pequena pode ter?”, percebemos que não podemos confiar totalmente no narrador.

Patrícia Melo:
“Escrever é fazer escolhas”
Gosta de lidar com a ideia de “destino” (no sentido grego, com toda a carga trágica). Esse destino é criado pelos personagens para que eles justifiquem suas opções, suas decisões.
Para isso, tenta criar ambivalência no caráter da personagem - “há um rio o levando, mas a qualquer momento ele pode sair do fluxo” - é muito cômodo ele achar que não existe saída.
Assim criou os personagens dos romances “O Matador” e “Ladrão de cadáveres”.
Patricia considera que “a sociedade é uma coleira para nossa selvageria”. E completa dizendo: “o que me faz escrever é a impossibilidade de responder sobre a questão da maldade humana. A maldade é inata, mas o ímpeto civilizatório é ligado ao instinto de preservação”.
Sobre a voz da narrativa: o que difere uma voz da outra são as histórias. Aquela voz que irá levar a história adiante.

0 coisa(s) que não devemos esquecer: