quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Outro céu em Saigon

Ainda estou de olhos fechados tateando atrás do resto de sono. No último round, monto um elefante feito o Tarzan de Ron Ely, persigo um tigre pelas savanas. O tigre atravessa um córrego e o elefante galopa, levanta a poeira vermelha dos filmes da matinê e o cheiro é aquele da primeira vez em que fui ao circo. Ganhei maçã-do-amor e descobri, mesmo sem ter idéia do que fosse, a melancolia. Duas horas embaixo da tenda como um boneco resignado a nascer de um forno de barro, sem entender muito o porque das acrobacias do motoqueiro do globo da morte e tonta por causa do cheiro de mijo, serragem e suor. Chorei quando o palhaço entrou no picadeiro, velho e cansado demais para esconder a dor da artrite. Enquanto o rosto do palhaço escorria formando gotas grossas de suor e pancake, eu me interessava em cravar os dentes na maçã e chupar as pontas dos dedos, colando nas narinas a doçura do cheiro da calda vermelha, disfarçando o fedor do ar. O tigre salta pela córrego. Ouço o balido de outros elefantes, tão longe, e do outro lado das cortinas, tão perto, a porta de grades da padaria. O suor escorre pela minha nuca, você fala dentro de mim. Sua voz por trás do tigre que espia por uma folha pintada com giz-de-cera e um girassol que colori no jardim de infância, uma pétala para cada raio do sol. A flor colada em um cartão do mesmo azul da fronha em que afundo o rosto enquanto você comenta, segurando a porta da rua, e posso ouvir o tilintar dos sinos chineses sobre sua cabeça, a respeito do pão para o café da manhã. As mãos do negro Pocho sovavam a massa para depois moldar meia-luas, pequenas e com as pontas em nó, que engordavam com o calor do forno e cresciam em direção a chama. Os dedos grossos do negro Pocho contavam as moedas que eu despejava sobre o balcão, e sonhava o dia em que seria mais alta que o balcão e só assim descobriria se era de ouro ou prata a tesoura de cortar os cabelos-de-anjo e onde moravam as vovós, pobres infelizes, sempre sentadas. Maravilhada com as mãos de chocolate de Pocho e o sorriso com dentes de glacê, depois de conferir o troco e entregar o pacote de papel pardo e vapor, mantendo aquecidos os sonhos de doce-de-leite, quase iguais aos que vendem na padaria, e descobri isso no segundo ou terceiro dia em que nos mudamos, a mesma padaria que já abriu as portas e por isso você saiu me deixando com o tigre que balança a cauda até desaparecer no mormaço da savana. A luz se encolhe, passa pelas frestas da persiana e explode, dizendo que já amanheceu e não falta muito para que você volte, trazendo o cheiro da manhã e do café. Para que suba as escadas, sem segurar no corre-mão, e entre na sala abafando o balido dos elefantes com o tilintar dos sinos da porta da frente. Para que você entre no quarto, deite-se ao meu lado, nocauteando o último segundo de sono, devolvendo-me a doçura dos dedos suados de calda. Quando meia-luas se abraçam e formam um céu em Saigon.

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