Você me enxerga, de onde você está? As vezes acho que vejo você por partes, feito torrões doces, que consigo tirar um depois do outro de minhas lembranças, portanto é inevitável que em certas ocasiões eu não lhe complete (como naquele quebra-cabeça do tigre-branco que por anos esteve sobre a mesa da sala de jantar, e por todo esse tempo todos tiveram que comer com os pratos sobre os joelhos, ou apoiados no balcão do corredor, respeitando o tigre-branco com um olho vazado, cheirando a mogno ou jacarandá). Você me escuta, de onde você está? Chamo por você de olhos fechados e enxergo apenas suas mãos impressas nas minhas retinas, suas mãos feitas de memória segurando meu rosto como aqueles talheres de servir a salada, as duas colheres, uma em cada ponta, esquisitos talheres de servir salada, suas mãos em forma de concha, uma de cada lado do meu rosto, prontas para servir minha cabeça em seu prato. Nesse lugar onde você está, você entende quando falo? Você parece compenetrada demais, seu olhar muito sério em frente ao mar no meio da tarde, ou quando você trata de escolher entre o café e o chá, seus olhos ora para um, ora para outro - é um sofrimento, como se todas as escolhas fossem definitivas, até mesmo escolher entre o chá ou o café. Existem tigres onde você está? pode parecer um absurdo, mas o que importa o absurdo, afinal seria um assombro se um dia qualquer acordassemos e o tigre amanhecesse completo.




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